Um exercício mental prático: quantas pessoas gays, lésbicas ou bissexuais trabalham com você? “Se eu olho para LGBTs, eles também estão em cargos de liderança, mas não necessariamente se assumem no ambiente de trabalho. Nem sempre falam sobre a sua orientação sexual e, mesmo quando falam, são muito comuns as situações de preconceito e todo tipo de violência nas organizações”, alerta Ricardo Sales, consultor da Mais Diversidade, pesquisador e eleito pela Out&Equal Workplace Advocates, o brasileiro mais influente no assunto diversidade nas organizações. Retomando o exercício mental: e quantas pessoas trans trabalham com você? “E se a gente fizer o recorte pensando nas pessoas trans aí, de fato, temos uma exclusão muitíssimo grande”, ressalta Sales.

Os números não mentem essa realidade, pois segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a partir do estudo Mapa dos assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017, “90% de travestis e transexuais utilizam a prostituição como fonte de renda e possibilidade de subsistência”. Além disso, 13 anos é a idade média em que travestis e pessoas transgêneras são expulsos de casa. Segundo dados do Projeto Além do Arco-Íris, da AfroReggae, apenas 0,02% dos trans estão na universidade, 72% não possuem o Ensino Médio e 56% não concluíram o Ensino Fundamental.  Dentre as consequências desse quadro, que reflete exclusão social, familiar e escolar, relacionam-se às dificuldades de inserção de travestis e pessoas transgêneras no mercado formal de trabalho.

Inclusão é a chave do negócio

Iniciativas como o TransEmpregos auxiliam na inserção da população trans e nãobinária em empresas. Criado em 2013, o projeto tem como foco a empregabilidade de pessoas transgêneras, fazendo a intermediação entre candidatos e empresas, bem como preparando empresas e corporações para praticar a inclusão, de fato. Maitê Schneider, consultora de diversidade e uma das fundadoras do TransEmpregos, conta que, há 16 anos, em Curitiba, ela fundou a ONG Transgrupo Marcela Braga e que, por intermédio deste grupo, houve incentivo para cursinhos preparatórios exclusivos para pessoas trans. “Elas começaram a estudar, terminaram o Ensino Fundamental, Médio e também as graduações. Só que começaram a reclamar de um problema que não tínhamos dado conta: apesar das qualificações educacionais, nas mais diversas áreas, não havia emprego/acesso a elas”. E desse problema, após diálogos entre Schneider e nomes como Márcia Rocha e Laerte Coutinho (nas várias palestras que elas ministram), surgiu a ideia do TransEmpregos.

Ao dialogarem com as empresas, a consultora afirma que era comum ouvir respostas como: “Não sabia que tinha gente qualificada” e “Achei que todas eram prostitutas”, numa reprodução de estigmas e preconceitos. “Há bastante gente que vive da prostituição, porém,  temos pessoas que vivem da prostituição e tem mestrado e doutorado, pois não conseguem oportunidade nas áreas de formação. Quando informamos isso aos empresários, eles disseram: ‘se vocês têm essas pessoas, tragam, porque, se se adequarem na vaga, não há problema nenhum’”, comenta Schneider. Ela cita, em alguns casos, que há homens e mulheres trans que têm conseguido seu primeiro emprego formal somente agora, com mais de 50 anos. “Isso se dá porque antes só havia exclusão. Ao mesmo tempo em que este fato é uma alegria, revela também o atraso e que algo precisa ser feito, urgentemente. Há pessoas que morrerão sem ter direito ao emprego”, afirma.

O trabalho do TransEmpregos hoje se dá em três movimentos. O primeiro é receber currículos de pessoas trans gratuitamente (é possível fazer o cadastro no site www.transemprego.com.br) e fazer essa ponte com as empresas que estejam aptas para a inclusão. É muito importante que a organização esteja pronta. “Percebemos que depois de dois ou três meses que a pessoa trans ou não binária estava empregada, ela pedia demissão por não se sentir inserida na equipe de maneira efetiva por questões problemáticas como,  do nome [social] e do banheiro , dentre outras. Enfim, as empresas não estavam prontas para essa tal diversidade”, elenca a consultora.

E é que aí entra o segundo movimento do trabalho da TransEmpregos, que é a realização de consultorias para preparar as empresas a serem inclusivas, na prática, e não somente no discurso. “Dialogamos com CEOs, lideranças e funcionários para estarem lidando com a diversidade humana e a variedade de pessoas. É uma situação especialmente difícil para pessoas transgêneras, pois raramente elas têm amigos e familiares trans em seu círculo social, então há muita desinformação, além do fetichismo e dos estigmas negativos reproduzidos há tempos”, explica a fundadora. Este trabalho demanda tempo e só depois que a empresa está pronta é que é feita a ponte entre candidato e organização, para que sejam um processo bom para ambas as partes.  O terceiro movimento da TransEmpregos vai além da empregabilidade. “As próprias empresas querem ir além, pois sabem que diversidade traz inovação. Quando a meta é a criatividade, traz retorno produtivo para a empresa”, afirma Schneider. “As empresas estão mudando realidades sociais, cada uma dentro de suas missões e seus valores, trazendo um novo pensamento para melhorar o entorno social”, elucida.

Mais do que empregos

Maitê Schneider é também a primeira trans a ser embaixadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), onde já ministrou várias palestras sobre diversidade. Da aliança, veio a expansão de network e a parceria com o Google para o projeto Womenwill, programa internacional da empresa para o empoderamento de mulheres, com o apoio da RME. O evento chegou ao Brasil em 2018, ocorreu no Google Campus durante dois dias e contou com aulas de finanças, tecnologia, negociação, liderança e comunicação para o público-alvo – a seleção deu prioridade às minorias, como mulheres com deficiência, mães solteiras, pessoas transgêneras, além de considerar quadro socioeconômico das candidatas.  Em agosto, ocorreu o curso voltado às mulheres trans, especificamente, com 100 participantes (como em todas as edições do programa) e Maitê Schneider estava lá.

“A questão da mulher trans era muito abstrata ou então nem aparecia na discussão com relação ao empreendedorismo feminino. E eu conhecia várias pessoas trans que seguiam o caminho do empreendedorismo, justamente por não serem aceitas no mercado de trabalho formal”, explica Schneider.  “Agora, por intermédio desse meu cargo de embaixadora e influenciadora da RME, que impacta 550 mil mulheres, começaremos a fazer a primeira rede de empreendedorismo trans  para, também, fortalecermos esses casos”, afirma ela. A meta do Womenwill, no Brasil, era de impactar 10 mil mulheres, em 2018, dando protagonismo às ideias e ações de mulheres cis e trans, marcando a ação pela responsabilidade social.

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