As periferias precisam de dinheiro para errar

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Marcamos na Avenida Faria Lima, zona oeste de São Paulo. Se não era necessariamente o coração financeiro da cidade, era onde se concentravam diversos escritórios que articulavam todo um campo econômico. Eu conhecia por lá. Havia trabalhado na Alameda Gabriel Monteiro da Silva vários anos antes para uma pessoa que, nunca vou me esquecer, me disse assim em meio a uma discussão: “vocês precisam parar de problematizar tudo e trabalhar pesado. Na situação em que o país está é muita sorte ainda termos este emprego para te dar, Tony”.

No dia seguinte eu pedi demissão.

Graças ao 857-A, Terminal Campo Limpo – Metrô Santa Cruz, eu desci ao lado de uma gráfica. Deu tempo imprimir uma pilha de documentos sobre o que fazíamos, com um dinheiro que nem tínhamos em caixa, todos devidamente organizados em um papel pardo. E uma apresentação simples, mas honesta de bonita, que eu havia feito com algumas anotações gerais sobre: metodologia, impactos e resultados financeiros. E foi assim que fui.

Se não era a primeira vez que eu entrava em um café em que o café custava tanto, era a segunda vez que fazia isso, no máximo. Cheguei, me sentei, pedi uma água, que era o que dava para arriscar pagar, e fiquei esperando o meu contato. Ele me mandou mensagem cinco minutos depois, iria atrasar, mas chegaria. Aproveitei para reler os documentos que havia feito. Espalhei em cima da mesa, peguei meu caderninho de notas e fui anotando tudo que era indispensável de contar.

É que marcar aquela reunião tinha sido quase tão difícil quanto empreender o projeto em si. Havia mandado e-mail para umas cinco iniciativas que faziam investimento em empreendimentos sociais. Nenhuma delas respondeu. Daí que um amigo fez a ponte, e consegui 30 minutos do meu contato. Ele havia me pedido para não atrasar, pois tinha uma reunião logo depois justamente sobre financiamento. Daí veio a minha preocupação em deixar tudo organizado, objetivo.

Ele chegou, pediu um suco, me ofereceu, eu não quis, e começamos a conversa. Tínhamos uns 20 minutos, ele me disse, pois havia um compromisso inadiável em seguida. Eu abri a primeira apresentação e já ia começar a falar, quando ele me pediu para eu dizer o que sabia de coração, mesmo. E saber de coração sobre o que fazíamos era realmente o melhor que eu fazia. Bom, eu disse, se não temos muito tempo eu vou te contar logo, então. E contei.

Contei que a metodologia estava super amarrada, que tínhamos este, aquele, e aqueles outros resultados para mostrar, que havíamos sido reconhecidos, justamente na metodologia que havíamos desenhado, que achávamos que a médio e longo prazo o que fazíamos poderia se transformar talvez numa política pública. Ele pediu desculpas por me atrapalhar, mas pediu para eu contar mais sobre como isso transformava a região. Eu ameacei pegar os documentos que havia levado, ele até tocou na minha mão, disse que não precisava, que era só dizer com o coração, e eu disse.

Em um determinado momento ele olhou para o relógio, me parou no que eu falava, e disse assim: “olha, o seu trabalho é incrível, mas me perdoe dizer isso, é muito romântico”. Eu olhando, ele continuou: “dentro do campo dos empreendimentos sociais, a gente precisa de pragmatismo, Tony, de resultado”. Eu ameacei de novo pegar o envelope com a apresentação, ele continuou: “achei tudo muito bonito, mas praticamente impossível captar com este projeto de vocês. O investidor não tem segurança para saber que o que ele está fazendo dá algum resultado prático para a comunidade”. Por fim, me disse que o projeto, apesar de legal, tinha que estar mais estruturado, competitivo, e pediu que eu ligasse quando isso rolasse.

Desde este dia, e já faz tempo isso, que eu fiquei com uns pés atrás em buscar apoio neste ecossistema. Tentei algumas vezes depois, mas sempre fiquei com a impressão que a pessoa que estava falando comigo não entendia nada sobre o meu bairro, sobre as necessidades do meu bairro, sobre a dinâmica do meu bairro. E mesmo assim tinha dificuldade em escutar o meu ponto de vista sobre as coisas todas. E logo as conversas terminavam em nada, como do nada elas começavam.

Nem todas e todos agem assim, mas a história ilustra um padrão de comportamento que eu percebo. As iniciativas que emergem nas periferias nascem pela necessidade, essencialmente, não pelo propósito, o discurso popular de momento. A gestão das urgências feita por quem mora onde eu moro não abre muitos espaços para que todas e todos nós fiquemos em casa imaginando como as necessidades do mundo encontram os meus talentos.

O que a gente anda fazendo, ao empreender o que quer que seja, é tentar inventar uma existência que faça frente a estrutura social que acredita, sincera e honestamente, que todo mundo agora está na internet. Mesmo quando no extremo sul de São Paulo a internet só chegue a rádio, quando chega. Defina “todo mundo”.

Os protagonistas do campo de investimento social precisam perceber que eles podem até entender de investimento, mas quem entende do nosso trabalho e território somos nós. E é preciso que isso seja relevante para uma conversa como essa, senão nada vai avançar. E quem já estava à margem, permanecerá, ao invés de vir para o centro da atenção.

As iniciativas das periferias nascem em contextos e com dinâmicas completamente diferentes do restante do que também é a cidade. E se isso não for levado em conta, a gente nunca vai conseguir acessar recurso nenhum. Pois o campo já está emergindo a partir de padrões geocêntricos do que é resultado, do que é estruturação, do que é modelo de negócios, e tudo mais.

Historicamente, a gente sempre acessou dinheiro contado, linha por linha, para realizar os nossos projetos. Não tinha margem de erro. E se o campo quiser, verdadeiramente, incentivar novos protagonistas sociais, vai ser preciso mudar o paradigma de investimento e dar condições para que também as periferias, como todo o restante dos atores, possam errar no que estão fazendo. Não é possível que nem ao erro a gente tenha direito.

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