Na periferia, empreendedores de territórios inteiros

Pensar empreendedorismo social nas periferias passa por compreender que empreendedores não só investem em uma ideia, mas no seu território e comunidades.

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Se não fosse o Thiago Vinicius, hoje na Agência Solano Trindade, talvez eu nunca tivesse sido apresentado ao que o campo chama de empreendedorismo social. Thiago e eu éramos alunos do Projeto Arrastão, no Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, mas navegávamos águas diferentes em nossas trajetórias. Eu, graças à Fundação Abrinq, estava cursando faculdade de jornalismo na Universidade Santo Amaro, sonho de uma família inteira. Antes de existirem as essenciais políticas públicas de acesso ao ensino superior, era apenas assim que, quem mora onde eu moro, acessava o ensino superior. Ou pedindo bolsa diretamente à faculdade, ou empréstimo em algum banco, pelo que lembro.

Thiago, um dia, me ligou em casa e eu sem trabalho, concentrado nos estudos para não perder a bolsa logo no primeiro ano de faculdade. Durante o papo ao telefone, ele disse que estava empreendendo, queria me mostrar o seu projeto. Pediu-me para encontrá-lo dali a dois dias, eu fui. Acho que ele tinha 16 anos, na época.

Eu fui, e o Thiago passou uma tarde inteira me contando e mostrando que os resíduos que eram jogados fora – eu nunca o vi falando sobre lixo – dentro do Rio Pirajussara, ao lado do Projeto Arrastão, não geravam apenas as enchentes que a gente conhecia bem. Que era algo muito maior. Geravam problemas não só à autoestima dos moradores, à saúde deles, faziam com que gastassem mais, pois perdiam seus móveis, etc.  Ele me apresentou, naquele dia, o Reativar & Empreender, nome do seu projeto, e contou que estava indo a vários lugares falar de empreendedorismo social.

E não foi só isso. Por conta de fazer o que já estava fazendo, o Thiago continuou a contar, pelo que me lembro, que estava articulando atividades com o Movimento Hip Hop. Que estava, ainda, em diálogo com as escolas públicas da região. E andava até participando de uma outra reunião com os postos de saúde, conversando sobre cultura, educação, sexualidade. Eu, ouvindo tudo aquilo, fui me perdendo na agenda e nos assuntos dele. O Thiago me disse que quem fazia o que ele fazia era chamado empreendedor social. Alguém que se dedicava a desenvolver soluções para problemas sociais complexos, mas colocando essa dedicação como jeito de existir no mundo.

Pronto: chegamos ao ponto que queria. Foi o Thiago que me apresentou este mundo, que me deu os livros e os links para eu saber mais, conhecer as organizações que trabalhavam com o tema no Brasil. Era  tudo mato naquele tempo. Para fazer o que ele fazia além de apoio à sua ideia, o Thiago tinha também suporte econômico como pessoa. Ou seja, trocando em palavras de pingado numa manhã de segunda: o apoiavam financeiramente para que ele pudesse se dedicar integralmente a fazer o que fazia. O dinheiro não era apenas para cobrir os custos do Reativar & Empreender, era também para que o Thiago dedicasse seu tempo, talento e energia nas suas ideias de uma periferia diferente, realizada em sua potência. Essa foi a primeira vez que entendi que quando se nasce onde a gente nasce, nas periferias, a pessoa não empreende o seu projeto, ela empreende o território.

Veja, me explico:  todas as pessoas que conheço, hoje em dia, que estão articulando coletivos, empreendimentos sociais, negócios de impacto, e todos os outros termos que você queira imaginar e usar, não fazem isso apenas ao redor de uma ideia, de uma iniciativa. É diferente, ao menos para mim e nas periferias. Essas pessoas dedicam, sim, um tempo considerável em fazer suas ideias crescerem, ganharem força e vida, se espalharem. Mas elas estão envolvidas até o coração com uma dezena de articulações que, às vezes, são bem distantes do seu tema motivador, mas dizem respeito integralmente à sua rua, praça, bairro,  à sua classe, gênero, raça. Viu, é diferente.

Além de puxar aquele projeto de educação/comunicação, oferecer oficinas para 30 jovens todos os “sabadões”, das 9h às 17h, as pessoas envolvidas em projetos como esses varam noites fazendo reunião sobre plano diretor, violação de direitos, sobre segurança alimentar dentro do seu bairro. Assim, se dá início à organização da comunidade e se começa a fazer pressão política para que essa ou aquela secretaria cumpra o que prometeu quando Cabral desembarcou por aqui.

Eu posso contar nos dedos quais pessoas apenas empreendem o seu projeto, a sua ideia, ou seja, a sua iniciativa. Isto dentro das redes em que estou inserido, hoje em dia. Está para além disso, elas empreendem uma visão de mundo, uma visão de futuro, uma visão de território. O próprio território, veja, é diferente!

E, então, chegamos à motivação de eu ter ido buscar este papo com o Thiago uns 13 ou 14 anos atrás. Não fui só eu que cresci de lá para cá. Uma pessoa, empreendendo a partir das periferias, já parte estruturalmente atrás do restante da cidade com relação a acesso a recursos, redes, talvez ferramentas. Estruturalmente também nunca empreende apenas a si, ao seu projeto, mas também a todo um território. Será que não seria hora de pensar, para além dos editais que financiam projetos, suporte financeiro a pessoas, como os institutos e fundações faziam lá atrás, na época que o Thiago me apresentou tudo isso como possibilidade de vida?

Veja, se um apoiador fosse suporte financeiro para um Ronaldo Matos, para uma Thais Siqueira, para um Bruninho Souza, uma Franciele Meirelles, e tantos outros fazedores por aí, você faz ideia das mudanças estruturais que elas moveriam em seus territórios em um, dois anos? Das redes que elas colocariam em movimento, que reativariam por se sentirem no mínimo,  mais seguras economicamente no dia 10 de todo mês? Isso é o que chamamos de segurança econômica para combater desigualdades de acesso.

Ter que empreender no seu território a sua ideia, o seu sonho, na sua comunidade, e ainda precisar fazer mais sete “freelas” para fechar a conta dos boletos no fim do mês, mas só tendo dinheiro apenas para ajuda de susto (nem é de custo) do seu coletivo é também da desigualdade estrutural. Ou seja, uma desigualdade de acesso a oportunidades. Talvez, seja legal olhar para isso, não?

Recuperando essa prática de apoio,  quem sabe a renovação política que tanto sonhamos não consiga emergir de vez? Até porque passa ser interessante pegar aquele “freela” no dia seguinte e acreditar que conseguirá fechar as contas de setembro, do que ter que ir àquela imersão sobre políticas públicas no sábado próximo? Quem sabe, não é? E, quem sabe se essa pessoa tivesse suporte para realizar a potência que é quem sabe, não é mesmo?

Não acredite em nada que eu disse. Mas não desacredite!

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