Mulheres do complexo do Alemão (RJ), em curso de empreendedorismo

O empoderamento econômico e a visão empreendedora das mulheres pode transgredir questões de gênero e diminuir a desigualdade no ecossistema de negócios de impacto?

Os negócios de impacto e os negócios sociais no Brasil (leia sobre a diferença aqui), trazem não só perspectivas de diminuição da desigualdade no país, incorporam também a própria desigualdade do país. Ao olhar para dentro do ecossistema sob a ótica de gênero, o ambiente ainda é predominantemente liderado por homens. Apenas 20% dos negócios sociais brasileiros foram fundados por mulheres e 58% fundados por equipes totalmente masculinas. Os dados são da pesquisa sobre empoderamento feminino no Brasil publicada pela British Council (leia a pesquisa aqui),  e retratam o cenário desigual de acesso as oportunidades para o empreendedorismo feminino. Mas os negócios de impacto, ou os negócios sociais poderiam de fato ser um caminho para o empoderamento feminino e a igualdade de gênero? Segundo as próprias mulheres, sim. Nas entrevistas da pesquisa, 75% relataram maior sentimento de autovalorização, 56% relataram aumento da confiança e 56% disseram que se sentem mais capazes de fazer suas próprias escolhas. O relatório também traz o aspecto econômico do empreendedorismo feminino e constata que, para 29% das mulheres, a geração de renda é oriunda da própria atividade empreendedora. Para compreender melhor as relações entre questões de gênero, empreendedorismo feminino e negócios sociais e de impacto, entrevistamos a consultora e autora do livro “Mulheres de Negócios”, Elena Martinis. Com 18 anos na área de gestão de negócios, a carioca é também palestrante e articuladora do empreendedorismo feminino e negócios sociais. A seguir um pouco da conversa concedida para Aupa.

A professora Elena Martinis acredita que o empreendedorismo feminino pode ser também uma forma de combater a violência contra às mulheres.

Quando a mulher empreende é um impacto social por si só?

Dada a questão brasileira da violência doméstica – psicológica, física, entre outros 5 tipos – onde a mulher é responsável pelos cuidados da casa e ainda recebe menos que os homens, sem dúvida nenhuma quando uma mulher empreende já é um impacto social por si só. A gente precisa saber destrinchar as estatísticas. Mais mulheres abrem novas empresas porém, elas vão sumindo mais rapidamente no terceiro ano. Geralmente as mulheres abrem empresas ligadas ao cuidado, como salão de beleza, gastronomia e artesanato, mas é preciso pensar também em uma migração das mulheres para as áreas tecnológicas.Há muito o que fazer ainda nessa área e falta muito da ótica da mulher dentro do setor de tecnologia. Pra que essas soluções tecnológicas, ou que usam a tecnologia como ferramenta, sejam mais sensíveis às questões das mulheres, é preciso combater a ausência de diversidade nas soluções também.

O empreendedorismo de impacto feminino pode contribuir para a transformação social? Chega a tocar em problemas estruturais?

Sim, mas desde que você imagine, inclusive, que existe a necessidade de mais negócios sociais para resolver problemas e questões femininas. Acredito que contribui para a transformação, mas é preciso que se fale mais do aspecto feminino e ainda não se chegou a esse ponto. Seja em soluções voltadas para as mulheres ou, ainda em negócios de impacto social promovidos por mulheres.Nesse sentido, o empreendedorismo feminino chega a tocar em problemas estruturais, sem dúvida nenhuma. Agora, justamente pelo fato de serem problemas estruturais, e pela própria inerência da dificuldade econômica dos negócios sociais se implementar, ter pernas firmes, esses problemas de ordem estrutural são, sim, uma grande barreira para os negócios.Eu sou otimista. Se a briga não fosse boa, não valia a pena lutar. Mas é um reduto, o negócio social ainda é um reduto. Quando a gente fala, quando a gente nomina, fica mais fácil de resolver. Ainda falta dar nome para negócios sociais para mulheres, liderados por mulheres.

Quem são as mulheres empreendedoras de impacto hoje? Como elas estão presentes e atuam no território?

Há diferenças de gênero e de raça. (veja série especial da Aupa em “Qual a força afro-brasileira no ecossistema de impacto?”.) Então nós temos muitas mulheres brancas estabelecendo negócios sociais formais, e isso tem haver com acesso à disponibilidade financeira pra colocar no seu negócio e o melhor acesso à educação que tiveram. Mas existe o outro lado. Isso se reflete também nas mulheres que são responsáveis pelas suas famílias monoparentais femininas, da falta de creche, entre outras questões. Estamos falando de uma série de coisas que retratam esse cenário de diferenças.Em relação a presença feminina empreendendo no território, é importante ter uma visão local. Uma mulher que possui um negócio social e pertence a um determinado território, costuma ter uma visão da própria necessidade, da própria demanda. Ela vive aquele negócio na pele. Não que uma pessoa de fora não possa, mas essa pessoa alheia ao território tem que ter um olhar especial, uma escuta muito grande, para não impor uma solução e sim, criar uma solução. É preciso que as pessoas vivenciem a realidade local.

Por que não há tantas mulheres no empreendedorismo de impacto?

Primeiro a gente precisa perceber, falando de empreendedorismo como um todo, não só de impacto, que as mulheres abrem mais novas empresas do que os homens, isso é fato. Mas também sabemos que depois do terceiro ano de abertura, de início de uma empresa, a quantidade de mulheres que mantém essa empresa, cai drasticamente.  O índice de insucesso de empresas é maior de mulheres do que de homens. Somado a isso, sabemos que o Brasil é um dos piores lugares do mundo pra se ter um negócio de impacto socioambiental. As condições no Brasil são bastante adversas pra se ter um negócio, como acesso à empréstimos e juros altos. O ambiente é pouco favorável. Então, se você levar em conta as próprias dificuldades da mulher de empreender na sociedade e comparar com o ambiente do negócio social, que já é um ambiente muito mais difícil do que para uma empresa tradicional sobreviver, você vai ver que os negócios de impacto têm apenas 20% de mulheres no Brasil. Então você potencializa todas essas dificuldades pelo fato de ser mulher. Como a mulher já tem essa pecha na sociedade, entrar no nível de igualdade para fazer esse tipo de negócio já vem com essa dificuldade.

Como o empreendedorismo feminino se reflete no ecossistema de impacto?

Eu faço um paralelo com a baixíssima presença de mulheres nas áreas de startups e nas áreas de tecnologia. Isso está aumentando, mas ainda somos poucas. Há ainda iniciativas para trazer as mulheres para o investimento anjo. Então, da mesma forma que a área tecnológica reflete essa diferença, no empreendedorismo de impacto, isso também ocorre. Mas, acho que ainda é muito mais sensível essa diferença dentro do ecossistema de impacto.O impacto vem justamente encontrar as grandes demandas da sociedade, das favelas, das periferias, das área de conflito. Não que as startups não vejam isso e existem startups altamente escaláveis que lidam com tecnologia, mas ao pensar em negócio de impacto, estamos falando de problemas sociais humanos e as baixas estatísticas de empreendedorismo feminino também acabam ficando evidenciadas dentro desse ecossistema.

E qual a importância da formação de rede de contato e uso da tecnologia nesse sentido?

Nós vimos aparecer nos últimos anos, e principalmente no último ano e meio, muitas redes de apoio ao empreendedorismo feminino. Embora na maioria delas, há ainda muito o que fazer porque muitas não têm um conteúdo formatado, sem dúvida a tecnologia potencializa essa formação de rede de contato. De alguma maneira, acredito que isso vai amadurecer e a tendência para os próximos anos é de que essas redes de empreendedorismo feminino migrem muito mais pra formação de conteúdo do que apenas networking, que é importante inclusive, para conectar mulheres de áreas e regiões diferentes. Tudo isso tem a ver com a própria tecnologia social. Tem a ver com você ter um negócio de impacto replicável em outro território, respeitando essas peculiaridades. É possível que essas redes fomentem o empreendedorismo de impacto, mas ao meu ver não é agora. É preciso que essas redes amadureçam. A empreendedora brasileira faz muita empreendizagem, ela empreende o próprio aprendizado empreendedor.

Como enxerga a maternidade dentro do contexto do empreendedorismo feminino?

A maternidade no empreendedorismo feminino e a maternidade no próprio ambiente de trabalho, né? A estatística diz que 50% das mulheres saem dos seus trabalhos um ano depois de ter filhos. Claro que isso pesa muito mais para mulheres de baixa renda. Então, a maternidade afeta tremendamente seja para as mulheres que acabam empreendendo sozinhas em casa, seja para as mulheres que são formalizadas.A empreendedora tem que ter muito planejamento para resolver isso. É importante colocar no modelo de negócios esse cuidado com os filhos. Colocar essa dinâmica dentro. Ou a gente fala disso, ou a gente vai esconder debaixo dos panos. Essa é a realidade. A gente tem que colocar isso no papel.

O empreendedorismo pode superar situações de violência doméstica?

Essa é uma das questões da minha empresa. Muitas mulheres não sabem que estão em situação de violência. Outras percebem e levam anos pra sair. Outras não saem por questões de medo do companheiro, do marido, ou com medo de ficar sem os filhos. Muitas mulheres não têm pra onde ir, não tem dinheiro, não tem como fazer dinheiro. Nesse sentido, o empreendedorismo pode ajudar muito. Só fazer dinheiro não é condição única para sair do caso de violência. É preciso que a mulher se empodere. Precisa de um aparato legal também que ainda deixa a desejar. Mas o empreendedorismo tem uma força para tirar a mulher da situação de violência.O poder do patriarcado não é só pela força física, é também um poder econômico. Quando você fala que ela pode empreender, que ela sabe empreender e ela usa as ferramentas e começa a fazer e gerar uma renda, isso por si só já confere um sentimento de valorização muito grande para as mulheres. Bom que está se falando mais sobre isso: empoderamento feminino e empoderamento econômico pra que as mulheres saiam de situações de violência.

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