O racismo traz consequências que vão além da questão econômica: ele reflete na sociedade em termos sociais, culturais, históricos – e até mesmo de identidade. Afinal, o fenômeno de brasileiros reconhecendo suas raças e se autodeclarando pretos e pardos é recente. Somente no Censo de 2010 revelou-se que 50,7% dos brasileiros se autodeclaravam pardos ou pretos.  E engana-se quem pensa que o racismo é uma pauta exclusiva a negros – ele é um problema a ser debatido e refletido pela sociedade por um todo. E, para fomentar esse debate, a educação continua sendo o principal canal de transformação.

Ao longo das últimas décadas uma série de políticas públicas foram implementadas, de modo a incluir a matriz afro-brasileira a partir da vida escolar. Uma delas é a lei 10.639/2003. Segundo texto da lei, deve-se contemplar nos currículos escolares “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação e de Literatura e História Brasileiras”. A lei foi sancionada para que sua aplicação fosse feita a partir de estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, de modo a tornar obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Para tal, há uma série de iniciativas do governo, de entidades da sociedade civil e, inclusive, de negócios sociais somam esforços no sentido de promover uma educação para a cultura afro.

A AfroeducAÇÃO é um destes negócios sociais. Fundada há dez anos por Paola Prandini e Cinthia Gomes, a entidade leva formações variadas para escolas e instituições que queiram refletir desigualdades e promover ambientes plurais. Um dos principais eventos organizados pela entidade é a sessão AfroeducAÇÃO de Cinema, no Shopping Frei Caneca, além de consultorias e formação.

A equipe coordenada por Prandini é formada por 8 pessoas, todas voluntárias e, segundo ela, “com igual voz de veto no processo.” As funções dos voluntários variam entre construção e redação de projetos, organização de eventos, pré-produção e produção durante a realização de eventos, oficinas, fotografia, produção de conteúdo. Em entrevista para a Aupa, Prandini avalia a trajetória do negócio e os desafios de tratar com a cultura afro-brasileira na educação.

“hoje, ao menos, é difícil você encontrar uma pessoa que não aceite o fato de que o Brasil é um país racista.”

AUPA | Qual é o público-alvo das atividades que vocês desenvolvem com a AfroeducaAÇÃO?

PAOLA PRANDINI | Prioritariamente, educadores e educadoras de escolas públicas. De qualquer disciplina, de qualquer conteúdo curricular, qualquer idade. A gente entende que a lei 10.639/2003 é transversal, então, por isso, ela precisa impactar geral: desde a criança, de zero a 3 anos, até o EJA, com a Educação de Jovens e Adultos.

AUPA | E qual o impacto que a AfroeducAÇÃO gera nesse público?

PAOLA PRANDINI | A AfroeducAÇÃO colabora com o desenvolvimento profissional desses educadores, mas também com o desenvolvimento deles enquanto cidadãos. Porque, por vezes, aquele conteúdo que o professor vai ter acesso numa formação nossa pode não ser nitidamente replicável com aquela turma na qual ele está trabalhando naquele dado momento. Mas, de qualquer forma, ele tem um ganho quanto pessoa e quanto cidadão e que precisa se tornar vigilante, consciente de seus privilégios e dos seus direitos, seja o cidadão negro ou não.

AUPA | E como você vê essa questão do empoderamento, sobretudo, do jovem negro, por intermédio da educação?

PAOLA PRANDINI | A gente acaba trabalhando muito com a educação formal, porque temos já uma rede estabelecida junto da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Mas, sem dúvida alguma, o nosso trabalho vai além disso. Tanto que, sempre que podemos, ocupamos espaços de educação, inclusive informal, como o cinema, entendendo que o cinema é um recurso pedagógico em potencial. Compreendemos que educação a gente faz o tempo todo e em qualquer lugar e, por isso, estar ou não estar na escola não é condição sine qua non ou indispensável para o trabalho que a gente vai desenvolver. Então, tem momento que sim, a gente está dentro das escolas, mas tem momento que não – e a gente entende que está trabalhando e fazendo educação da mesma forma.

“Não falamos em diversidade, fala-se em valorização da diferença. Não falamos que somos todos iguais, falamos, na verdade, que somos diferentes e precisamos questionar os  privilégios.”

AUPA | Como você vê essa escolha de tornar o AfroeducAÇÃO uma negócio social?

PAOLA PRANDINI | A AfroeducAÇÃO existe há dez anos. Desde o princípio a nossa ideia sempre foi essa, a de ser uma empresa com fins sociais. E é um desafio muito grande. Acho que há o lado bom e o lado ruim dessa opção. Por um lado, a gente consegue ter uma flexibilidade, inclusive jurídica, para trabalhar com emissão de nota fiscal. Assim, conseguimos ocupar espaços que, por vezes, exigem de nós esse tipo de estrutura de consultoria e garante uma profissionalização maior daquilo que a gente faz. Mas, por outro lado, estando no Brasil, que é um país ainda onde a regulamentação do setor 2.5 tão precária e jovem, a gente acaba, por exemplo, tendo que pagar imposto como uma empresa qualquer que não tem fins sociais. Às vezes, a gente acaba não podendo participar de alguns editais por serem editais focados em ONGs. Então, ainda é algo a ser melhorado em termos de regulamentação jurídica desses negócios sociais que estão enquadrados neste setor 2.5.

AUPA | Acaba sendo o setor que não tem um lugar: porque ou você vira o 3 ou você vira o 2…

PAOLA PRANDINI | Exatamente.  A gente vê um crescimento do setor 2.5 no Brasil, inclusive, muito impulsionado pelo social business nos Estados Unidos. Eu espero que num futuro breve a gente tenha mudanças importantes neste sentido.

AUPA | Quais atividades a AfroeducAÇÃO oferece?

PAOLA PRANDINI | As sessões da AfroeducAÇÃO junto do clube do professor, no espaço Itaú de Cinema (no Shopping Frei Caneca), acontecem a cada dois meses, sempre tendo exibição de filmes seguida de debate. A gente também trabalha com formação de professores. Realizamos consultorias a empresas que têm interesse em estabelecer um ambiente mais igualitário. Nesse grupo, a gente atua não necessariamente com recrutamento, como muita gente faz, mas com a formação dos funcionários que já estão lá. Que é justamente para tentar colaborar com um ambiente seguro para essa população diversa que vai adentrar aquele espaço.

AUPA | Como funciona para vocês esse resgate da matriz afro-brasileira nas atividades desenvolvidas pela AfroeducAÇÃO? 

PAOLA PRANDINI | É um trabalho de guerrilha, que eu brinco. Não é nem de formiguinha, é de guerrilha mesmo. Porque a gente precisa enaltecer um discurso que é totalmente contra a lógica do senso comum brasileiro, que é, de fato, estruturalmente racista. Então, é uma briga de foice, sem dúvida alguma, o tempo todo. Inclusive, com a ampliação de protagonismo e representatividade de pessoas negras em cargos de liderança e chefiando diferentes organizações, sejam elas empresas ou não. Eu acho que isso também foi colaborando para conseguir estabelecer mais diálogo e mais rede e, hoje, ao menos, é difícil você encontrar uma pessoa que não aceite o fato de que o Brasil é um país racista. Isso não quer dizer que a pessoa vai se reconhecer como racista, mas ela entende que o país que ela vive é racista, que tem uma estrutura racista.  Então, isso já é um passo em prol de uma conscientização maior daquela pessoa enquanto cidadã e indivíduo. Mas é desafiador, a gente fica tentando reinventar a roda o tempo inteiro.

AUPA | Há ainda questões burocráticas onde o  racismo é muito enraizado, né…?

PAOLA PRANDINI | Super, super. A gente chega a ponto de, às vezes, perceber que há projetos nossos que não são escolhidos em editais por uma série de razões, mas entre elas o fato de que a gente não alivia o nosso discurso. Então, não falamos em diversidade, fala-se em valorização da diferença. Não falamos que somos todos iguais, falamos, na verdade, que somos diferentes e precisamos questionar os  privilégios. Falamos sempre em negritude e ‘branquitude’. Muitas vezes, esses conflitos e esses termos fazem as pessoas quererem nos silenciar e negar, exatamente, dentro dessa atmosfera, de que somos todos iguais.  Este é um discurso que não defendemos e que não amenizamos, de jeito algum.  Então, devido à escolha de ideologia, muitas das vezes, não conseguimos ter as portas abertas para algumas ações devido à  burocracia que é racista e não viabiliza nossa atuação.

“Para se chegar na descolonização do currículo, que é o nosso enfoque maior, é necessário primeiro, partir de uma desconstrução das mentes.”

AUPA | Fegundo o site da AfroeducAÇÃO, cerca de 8 mil pessoas já foram beneficiadas pelas ações de vocês. De forma indireta, mais de 400 mil. Comente esses números, por favor, que são bem expressivos.

PAOLA PRANDINI | Eu acho que chegamos nessa projeção porque  se trabalha muito com professor. E professor tem um impacto em muitas vidas. Pensando nisso e fazendo, por exemplo, um cálculo simples, um professor tem, em média,  30 pessoas com as quais ele se relaciona por hora. Ele é, na realidade, um grande multiplicador do nosso trabalho. E é exatamente por isso que conseguimos chegar numa projeção indireta como esta. Entendo que uma vez que o educador participa de uma atividade da AfroeducAÇÃO, ele certamente levará esse conteúdo que teve acesso para os alunos, para comunidade escolar, como um todo, para gestão da escola, para os outros profissionais da escola. E isso vai virando uma rede grande.

AUPA | Desse diálogo com os professores, especificamente, qual o maior desafio que você percebe ainda hoje?

PAOLA PRANDINI | Acho que o maior desafio é que esse professor não é uma ilha. E pelo fato de ele não ser uma ilha, muitas vezes, traz toda a lógica desse racismo estrutural como parte da sua visão de mundo. Então, não é porque ele é educador que  tem enraizado em si a problemática do que é ser negro e do que é ser branco no Brasil. No entanto, inicialmente se precisa desconstruir essa mentalidade para que se possa  “descolonizar currículo”, isso se não estivermos descolonizando mentes, saberes. Então, para se chegar na descolonização do currículo, que é o nosso enfoque maior, é necessário, primeiramente, partir de uma desconstrução das mentes.  Posso dizer que essa é a etapa  mais trabalhosa e muito mais longa. E aí, por vezes, precisamos de muito mais tempo em formação do professor para buscar garantir um pouco dessa coerência, inclusive, epistemológica de aplicação da lei.

AUPA | E é um processo que dói no começo.

PAOLA PRANDINI | Pois é, ele dói para todo mundo. Ele dói para quem é negro, porque é muito doloroso, e ele dói para quem é branco, porque a pessoa não quer se ver como racista, então, ela passa a ter vergonha disso. E essa  “vergonha-branca”, meio que paralisa a pessoa que possui esse sentimento dentro de si. Muitas vezes, inclusive, paralisa a escuta dela também.  Sendo assim, pergunto:  como fazer processos pedagógicos coerentes sem troca, escuta e diálogo? Eu não vejo saída. Por isso, dá tanto trabalho e é tão mais difícil, às vezes, mostrar a realidade . A gente brinca, aqui, que o indivíduo fica  em terapia de grupo.  E este tipo de terapia é mantido um bom tempo durante o processo de formação.

Foto: Acervo pessoal.

Leia os outros conteúdos da série:

Participação de empreendedores negros avança e começa a representar parte relevante dos negócios de impacto no Brasil.

“Nosso impacto é a construção de um mundo mais humano para nossa comunidade negra”, afirma Alan Soares.

“Essa consciência da ancestralidade, em algum momento, baterá forte”, opina Jéssica Cerqueira.

Organizações buscam igualdade racial na educação.

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