Visões periféricas marcam Fórum de Finanças Sociais

Os temas Periferia, gênero e raça tomaram papel central em parte das discussões do Fórum pelas perspectivas de atores do campo.

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“Como que a gente faz?” Essa foi uma frase usada repetidas vezes durante o primeiro dia do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impactos, na última quarta-feira (6). O evento – o maior dedicado ao tema na América Latina – reuniu empreendedores, empresas, organizações sociais e o governo para debater e aprofundar sobre o ecossistema de impactos.

Na fala de abertura do fórum, o indiano Amit Bathia, CEO da Global Steering Group (GSG), expressou sua aposta na capacidade do Brasil pode encabeçar o movimento, já que o país é um dos poucos com planos estratégicos para efetivarem políticas de investimentos de impactos na América Latina. A GSG é um grupo internacional que estimula, pelo mundo, ações direcionas ao investimento de impacto.

Bathia recordou, porém, que os movimentos em direção de uma agenda positiva para os negócios de impacto precisam ser inclusivos. “Os pobres não podem ser deixados de lado. Eles são bons clientes para as empresas, mas de forma alguma devem ser explorados como são atualmente”, direcionou. “Este movimento vai para história. Vamos mudar o capitalismo na sua essência, pois todos podem e devem participar. E aqui vejo mudanças nos cenários das empresas.”

Uma perspectiva: do outro lado da ponte

A visão de Bathia encontrou ressonância em outros painéis do evento, adaptando à realidade socioeconômica brasileira. Mas a pergunta se repetiu: como é que a gente faz? Como é possível fomentar inclusão em modelos de negócios? A resposta está com quem vive os efeitos da marginalização.

Também no primeiro dia do evento, painéis com o tema “Periferia, raça e gênero” debateram os impactos de negócios das periferias, diversidades nas empresas, empoderamento da mulher negra e um Brasil mais igualitário. Para isso, trouxe nomes de empreendedores da quebrada.

Quem fez a mediação dos painéis foi a Adriana Barbosa, do Instituto Feira Preta. A organização faz o mapeamento do afroempreendedorismo no Brasil e atua junto com aceleradores e incubadores de negócios negros.

Dentre os participantes, lá esteve  Marcelo Rocha, mais conhecido como DJ Bola. Ele é fundador d’A Banca, uma produtora cultural-social de impacto que utiliza da música, da cultura hip hop, da tecnologia e da educação popular para gerar inclusão, fortalecimento da identidade do indivíduo e empreendedorismo dos jovens. “Os ecossistemas precisam se abrir, por mais que existam inúmeras causas. Existe a quebrada também. Nós estamos aqui. Empresas, nós existimos”, provoca Bola ao explicar a importância de investimentos nas periferias.

O ponto chave de sua participação foi expor de forma de protesto as dificuldades e superações para empreender na periferia. “A gente não tem chance de errar, a gente morre mais cedo. É sério olhem as estatísticas. Estão nos matando… Nós da quebrada podemos romper barreiras, mas para isso precisamos ser protagonistas de nós mesmo”, defendeu. Com esta fala, Bola fez referência a uma máxima, discutida ao longo do Fórum, que inovação depende de mecanismos que permitam ao empreendedor experimentar e errar nos seus modelos de negócio.

Uma perspectiva: a mulher negra

Somando a este olhar, Ana Fontes falou em nome da Rede Mulher Empreendedora, primeira plataforma de empreendedorismo feminino.“ Não vai dar certo se não fizermos essas conexões, pois o dinheiro não pode ficar concentrado nos mesmo lugares. Precisa distribuir o recurso, deixar o país mais igualitário essa é a melhor forma”, instigou.

Outro alerta veio de Greta Salvi, do Fundo Zona Leste Sustentável, pioneira em empreendedorismo inovador. Greta destaca que movimentos para esta temática na região leste de São Paulo, historicamente marginalizada. “ A zona leste ainda é carente desses movimentos. É necessário que eles fossem para lá. Trata-se da região mais populosa da cidade e a que menos recebe investimento”.

O racismo estrutural que impõe dificuldades no percurso do empreendedorismo da mulher negro também foi exposto. Itala Herta, da Vale do Dendê, somou sua voz ao coro. “Incomoda a mulher negra ter autoria, imagina em grande escala”. Original de Salvador, capital baiana, a Vale do Dende é uma holding social que fomenta criatividade, empreendedorismo e inovação voltados à diversidade por meio de aceleração de negócios e consultoria, principalmente.

Já na última mesa, Adriana Barbosa fechou as discussões alertando que para fazer a revolução não pode ter preguiça. “Dá trabalho investir em periferia, mas o retorno dentro da comunidade para fora dela é maior que qualquer coisa”, conluiu.

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