Novos instrumentos em finanças sociais chegam aos negócios de impacto

Muito se falou da necessidade de trazer mais recursos financeiros, identificar atores que pudessem contribuir e fortalecer mecanismos novos e já existentes. E como fazer tudo isso?

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Em 2015, um grupo de diversos atores começou a se reunir para estudar e analisar as demandas, desafios e oportunidades do ecossistema de Investimento de Impacto no Brasil.  A iniciativa que ficou conhecida como Força Tarefa de Finanças Sociais. Recentemente, seu nome foi alterado para Aliança pelos Investimentos e Negócios de ImpactoEntre seus vários desafios, a ampliação da oferta de capital se mostrou como parte fundamental da engrenagem para fortalecer o campo.

Algumas respostas para este desafio vem surgindo. Algumas no sentido de idealizar e testar rapidamente modelos inovadores que possam atrair, principalmente, o capital tradicional privado para o campo de negócios de impacto.

Talvez o caso recente mais emblemático no Brasil seja a debênture do bem, criada no início deste ano, pela securitizadora Gaia, em parceria com a consultoria Din4amo. Este novo mecanismo financeiro beneficia, atualmente, o Vivenda, programa de reformas habitacionais de baixo custo.

Além de combinar fundos filantrópicos com investidores tradicionais, a grande inovação desse modelo está no potencial criado a partir no novo mecanismo. Ao final de 10 anos, estima-se que o investimento inicial será multiplicado por oito. Isso significa beneficiar muito mais gente com as reformas de casas. Esse modelo de emissão de títulos dá fôlego e confiança aos negócios de impacto mais estruturados e pode se revelar uma maneira eficiente de escalar iniciativas e atrair mais investidores tradicionais.

Outros modelos financeiros também estão sendo testados por um grupo de fundações e institutos de impacto. Inspirados pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, o FIIMP reúne, desde 2017, 22 organizações com o objetivo de experimentar e aprender com novas formas de investir em negócios de impacto.  Juntas, as fundações e institutos aportaram um total de R$ 703,5 mil para testar três instrumentos financeiros diferentes, por meio de três instituições intermediárias.

Um dos mecanismos em teste é a Garantia de Empréstimo. Na prática, o FIIMP, como investidor, aportou R$ 167,5 mil na SITAWI Finanças do Bem, uma OSCIP gestora de fundos socioambientais. A Sitawi, por sua vez, assumiu o papel de avalista ou fiador para o empréstimo a ser contratado por um negócio de impacto.

Com o contrato de garantia em mãos, a ideia central é possibilitar às empresas sociais nascentes ou em crescimento o acesso a fontes de capital, como linhas de crédito em bancos comerciais tradicionais.

A experiência no âmbito do FIIMP, no entanto, ainda não se concretizou. Um dos desafios a serem vencidos é o prazo de negociação na escolha do negócio de impacto, que nesse teste levou nove meses e fez com que o empreendedor selecionado desistisse. A expectativa é que um outro negócio possa acessar a garantia até o fim de 2018.  

O Título de Dívida Conversível foi outro instrumento testado pelo FIIMP. Nesse caso, cinco institutos colocaram R$ 167,5 mil em um sindicato (grupo de investidores) liderado pela Din4mo Ventures, que passou a gerir o capital via plataforma de Equity Crowdfunding, o Broota (hoje com novo nome: Kria). O mecanismo permite ao gestor, no caso a Din4mo, captar de outras fontes via plataforma, ampliando o capital que chega aos negócios sociais a serem investidos.

A terceira experiência do grupo foi com a ferramenta de Dívida. Outros R$ 167,5 mil foram investidos no Fundo Bemtevi que faz empréstimos para negócios sociais. Nesse modelo, 50% do valor foi destinado às empresas e a outra parte foi para uma aplicação financeira. O rendimento dessa aplicação fica com a Bemtevi que retorna o principal aos investidores em quatro anos. No formato de empréstimo, o percentual do atingimento do impacto pelos negócios é fator de redução de juros do empréstimo.

Minha breve avaliação:

  1. É um primeiro passo positivo na diversificação de instrumentos para atender a diferentes demandas de negócios de impacto em diferentes estágios de maturidade;    
  2. A experiência de atrair investidores tradicionais colocando na frente o capital filantrópico pode ampliar (e em muito) a capacidade de impacto das iniciativas, ainda que os valores sejam muito tímidos nesse começo;
  3. É importante que todas essas experiências sejam acompanhadas e os aprendizados, ao longo do curso dos investimentos, sejam amplamente compartilhados. O engajamento de outras fundações e institutos pode expandir e fortalecer esse movimento.

Vamos ficar de olho!

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