O espírito colaborativo do setor de impacto social acaba transparecendo, de uma forma ou de outra, dentre seus muitos atores. Não é outra a conclusão que se chega ao conversar com Priscila Martins, gerente de Relações Institucionais da Artemisia. Com 12 anos de experiência nas áreas de Marketing e Comercial em diversos segmentos, Priscila buscou nos negócios de impacto socioambiental sua especialidade. Concluiu, dentre outros cursos, um MBA em Gestão de Negócios Socioambientais pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (CEATS/FEA).

Em conversa exclusiva para a Aupa, Priscila detalha mais sobre as atividades da Artemisia quanto  aceleradora de negócios de impacto socioambiental. Além disso, ela dá dicas preciosas para empreendedores que buscam por investimentos.

AUPA A Artemisia funciona como aceleradora, além de orientar e educar líderes e empreendedores que, a partir de ideias lucrativas, impactam positivamente a população de baixa renda. Como se dá esse trabalho?

PRISCILA MARTINS A Artemisia é uma organização sem fins lucrativos, pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil. A organização apoia negócios voltados à população de baixa renda, criando soluções para problemas socioambientais provocando impacto social positivo por meio de sua atividade principal. Nossa missão é identificar e potencializar empreendedores e negócios de impacto social que sejam referência na construção de um Brasil mais ético e justo. Já aceleramos mais de 100 negócios de impacto social no Brasil e capacitamos outros 300 em nossos diferentes programas. Nossa visão é a de que brasileiros e brasileiras de baixa renda possam ter acesso a produtos e serviços que favoreçam o desenvolvimento de seu potencial para buscar uma vida digna e próspera – que se resume ao nosso sonho: 100% dos brasileiros vivendo com dignidade e poder de escolha.

AUPA Para quem pensa em começar um negócio de impacto social, quais os primeiros passos e os cuidados que devem ser tomados?

PRISCILA MARTINS Não existe uma fórmula de sucesso para criar um negócio de impacto social. Mas, apoiando empreendedores há mais de 10 anos, percebemos que há alguns fatores críticos e que são determinantes para o sucesso de um negócio. Primeiro, não seja um herói solitário. Tenha as pessoas certas ao seu lado. Os problemas que um empreendedor vai enfrentar são complexos e ter uma equipe altamente comprometida é fundamental.  O empreendedor precisa se unir às pessoas certas para que dê certo. Isso significa buscar pessoas experientes e capacitadas, que tenham habilidades em gestão, que possam tornar uma ideia criativa e socialmente útil em algo real e lucrativo. Quanto mais competências diferentes estiverem na base do seu negócio, quanto mais gente boa fizer parte da startup, mais chances o negócio terá de dar certo e, consequentemente, de ter credibilidade para receber investimentos.

AUPA E qual seria a dica para esse empreendedor encontrar investidores para o seu negócio?

PRISCILA MARTINS Busque clientes, não investidores. Dificilmente, um investidor se arriscará em um negócio que não tenha tido alguns resultados já comprovados, por mais vantagens sociais que o empreendimento vise oferecer. Por isso, iniciar um negócio de impacto social significa começar a agir sem contar com muitos recursos, mas buscando resultados. É necessário pensar em estratégias alternativas para gerar receita, de maneira que se consiga colocar a ideia em prática, mesmo que de forma tímida.

“NÃO SEJA UM HERÓI SOLITÁRIO. TENHA AS PESSOAS CERTAS AO SEU LADO.”

AUPA Além da busca dos resultados, como convencer que sua ideia é, de fato, uma oportunidade, e não apenas um sonho?

PRISCILA MARTINS Sonhe grande. Mas prometa apenas o que pode cumprir. A ambição de um empreendedor, em se tratando de negócios de impacto social, é de acabar definitivamente com o problema em determinada área, por exemplo, melhorar a educação do país. Ter essa ambição é ótimo, mas para preparar o pitch do negócio e convencer investidores, é preciso ser extremamente realista.  Supervalorizar o impacto social de seu empreendimento, prometendo coisas que não serão alcançáveis, significa perder sua credibilidade. Lembre-se de que o maior ativo de um empreendedor é a sua credibilidade. Ninguém leva a sério um negócio que promete algo extraordinário, se não tiver dados que comprovem ser possível sua realização. O melhor é identificar necessidades do mercado, verificar o que já tem sido feito nessa área e apresentar uma solução viável de oferecer um serviço ou produto com alta qualidade e menor preço. Depois, com base na mensuração de resultados iniciais, comprometa-se apenas com o que certamente poderá ser feito, sem exageros.

AUPA Como você vê a relação entre negócios de impacto social e a geração millennials? Quais novas mudanças os lideres desta geração trazem para os negócios de impacto social?

PRISCILA MARTINS Vemos que existe uma nova geração de profissionais brasileiros em busca de uma carreira que possibilite ter sucesso financeiro e atuar em uma atividade relevante para a sociedade. De acordo com um estudo conduzido pela Stanford University, na Graduate School of Business, 90% dos alunos de MBA da instituição estão dispostos a trocar benefícios financeiros pela oportunidade de trabalhar em uma empresa que demonstre um forte compromisso com o bem social. Estamos vivendo o que a consultoria global Great Place to Work  —  gestora da pesquisa Melhores Empresas para Trabalhar —  classifica como “A era do significado”.

Na prática, parte dessa demanda tem sido atendida pelo campo dos negócios de impacto social. Seja empreendendo, seja trabalhando para o negócio ou para organizações de apoio, como aceleradoras, incubadoras e fundos de investimento, ou até levando o conceito para dentro das grandes empresas — os chamados intraempreendedores –, muitos brasileiros têm conseguido unir o que, muitas vezes, parece difícil conciliar. Estão ganhando dinheiro e mudando o mundo.

Por outro lado, muitos dos empreendedores e funcionários de negócios de impacto social são profissionais experientes do mercado financeiro, por exemplo. Ou seja, pessoas com mais de 40 anos e com carreiras sólidas construídas em um mercado corporativo mais tradicional resolveram mudar suas rotas em busca de aplicar suas habilidades para gerar impacto positivo. Notamos que há um novo contingente de profissionais brasileiros de diferentes gerações – ou seja, indo além dos millennials – o que torna essa tendência tão interessante e relevante em busca de uma carreira na qual não tenha que escolher entre ganhar dinheiro ou mudar o mundo; um trabalho que possibilite ter sucesso financeiro e atuar em uma atividade relevante para a sociedade.

AUPA Como você vê o setor de negócios de impacto social hoje no Brasil?

PRISCILA MARTINS Nos últimos anos, o Brasil tem assumido um papel de destaque nesse novo movimento econômico: o empreendedorismo associado aos negócios de impacto social. O modelo tem se consolidado como forte tendência econômica contemporânea ao propor a atuação de empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda. Parte desta expansão é motivada por uma nova geração de profissionais que está em busca de uma carreira com propósito, como comentamos anteriormente. Nós da Artemisia temos acompanhando o crescimento do campo, no qual atuamos há mais de uma década. Focamos esforços para identificar e dar suporte aos empreendedores de impacto em diferentes setores (como saúde, educação, habitação, serviços financeiros, energia, alimentação, mobilidade, entre outros) para que cresçam com agilidade e se fortaleçam para conseguirem impactar positivamente a vida de milhares de pessoas.

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