Já pararam para pensar quais são os fatores que fazem com que o número de negros que desistem dos estudos é maior? A pergunta é complexa, mas há algumas dicas: racismo, vulnerabilidades sociais e ausência de contato com o repertório que fale sobre o próprio aluno e seu território (apesar da existência da lei 10.639, desde 2003). A não representação também é um tipo de violência, por vezes, naturalizada em nosso cotidiano.

Pensando nestes aspectos, entidades como a UNEGRO e a UNEafro atuam com enfoque social para equidade racial e valorização da pauta afro-brasileira e de modo que suas matrizes busquem promover a autoestima da população negra por intermédio de atividades culturais e de formação. Trata-se de pensar propostas de equidade e progresso a partir do respeito às diferenças étnico-raciais, sobretudo.

UNEGRO

A União de Negros pela Igualdade (UNEGRO) completou 30 anos, em 2018, e teve sua fundação em Salvador, na Bahia. Hoje, há núcleos espalhados em 26 estados. Cícero Gomes, de 44 anos, é professor de História e presidente da UNEGRO Mogi das Cruzes/SP. Segundo sua percepção, com cinco anos de atuação no município, é notável a diferença deste trabalho. “Já podemos perceber o impacto e a promoção da igualdade racial que se faz, a duras penas e lentamente, mas que já dá seus frutos”, conta ele.

Com a UNEGRO junto de outras entidades dos movimentos sociais houve, por exemplo, a criação do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), em 2013. “Também contribuímos com a formação da Associação Axé Mogi, que representa as religiões de matrizes africanas. Desde antes da fundação oficial da UNEGRO, em Mogi das Cruzes, já atuávamos no sentido de trazer visibilidade para essas práticas religiosas contribuindo, assim, para a superação do preconceito sofrido por tais religiões”, afirma. A UNEGRO Mogi conta, hoje, com 22 pessoas em sua equipe.

Como o racismo e seus efeitos atingem a sociedade por um todo, o público-alvo das atividades da UNEGRO são todos aqueles que desejam participar delas. “Claro que, como vítima direta desse crime, temos, preferencialmente, a responsabilidade com o povo negro, oferecendo-lhe todo apoio para a tomada de consciência de seus direitos e o esclarecimento para que possa perceber mais facilmente quando tais direitos são desrespeitados”, explica Gomes.  Tal auxílio é feito com palestras nas áreas de Direito e Saúde, assim como acompanhamento jurídico e psicológico nos casos de racismo.

O empoderamento e a tomada de consciência social são os caminhos que a UNEGRO acredita para combater o racismo. “Superar essa chaga social é um dever de todos, pois é dela, que é uma violência, que advém outros tantos problemas”, comenta Gomes.

“É a educação que nos dará as ferramentas para superarmos as injustiças sociais, a dependência econômica e a dominação política”, pontua Cícero Gomes

Dessa maneira, empoderar quem se encontra à margem da sociedade torna-se de suma importância. Nascem, assim, os agentes de transformação. “É necessário que tenhamos o entendimento de qual é a nossa real condição nessa sociedade. Somos a maioria da população brasileira [54%, segundo o IBGE], mas no que diz respeito a usufruir os direitos somos a ‘minoria’. É preciso definir que papel queremos desempenhar – certamente, não o de pessoas de segunda classe, como tem sido e como querem que continuemos sendo”, enfatiza o professor. “Queremos ser protagonistas de nossa história e isso se dá por meio da educação formal e não formal. É a educação que nos dará as ferramentas para superarmos as injustiças sociais, a dependência econômica e a dominação política”, pontua ele.

A retomada da matriz afro e da ancestralidade é feita dentro das atividades da UNEGRO. O principal evento neste aspecto é o anual As Três Rodas de Resistência Negra no Brasil, realizado sempre no dia 14 de julho, aniversário da entidade. As três rodas são: as religiões Candomblé e Umbanda, a Capoeira e o Samba. Na atividade são homenageadas personalidades desses três segmentos. “São pessoas que contribuem na manutenção dessas atividades que, para nós, representa a nossa ligação com a nossa ancestralidade africana, com o nosso passado, com quem somos”, explica o presidente.

A UNEGRO também trabalha diretamente com políticas públicas. “Por meio de parcerias com escolas estaduais e municipais realizamos diversos projetos, que vão desde a capacitação de professores a oficinas com os alunos. Isso se dá de uma forma muito individualizada, são ações individuais de professores e/ou gestores das unidades escolares que se preocupam com o tema da lei 10.639”, comenta ele sobre a lei que visa a garantia ao acesso à História e à cultura africana e afro-brasileira no Ensino Fundamental e Médio, de instituições privadas e públicas. No geral, entre todas as atividades desenvolvidas pela UNEGRO Mogi, ao longo de seus cinco anos, cerca de quatro mil pessoas foram impactadas socialmente.

Sobre o racismo, Gomes ressalta que “Os índices mais baixos, no que diz respeito à escolaridade, são dos negros, o que afeta diretamente nos demais índices sociais”. Na tradição africana, a raiz e o ensinamento do Sankofa (“volte e pegue”, na tradução em português), que trata de retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro, o professor destaca: “Entendemos que isso é fruto de nosso passado escravista e que a manutenção desses ‘grilhões’ atende a um projeto político, social e econômico de uma ‘elite do atraso’, como diz [o sociólogo, professor e pesquisador] Jessé de Souza – uma elite que tem um pensamento tacanho quando trata do nosso país”.

UNEAFRO

Rodolpho De Vicente Gomes, de 30 anos, é funcionário público estadual e professor/coordenador voluntário da UNEafro Brasil, organização que atende em média 1.600 jovens, por ano, nos 32 núcleos.  A UNEafro é uma rede de articulação e formação de jovens e adultos moradores de regiões periféricas do país. “Mais do que trazer esperança e perspectiva de crescimento profissional e pessoal aos jovens, ao auxiliá-los a ingressar no Ensino Superior, os cursinhos populares da UNEafro despertam neles o interesse por questões sociais que os levam, também, ao caminho da autopercepção e da autovalorização na sociedade brasileira”, explica Gomes. O público-alvo da UNEafro Brasil são jovens negros da periferia, em primeiro lugar, e também adultos e jovens que não sejam necessariamente deste perfil. Os 32 núcleos de ações populares atuam espalhados, majoritariamente, no estado de São Paulo, mas também em estados vizinhos, como o Rio de Janeiro.

Quando se dialoga sobre a formação crítica dentro da escola, os impactos são grandes em qualquer classe social, mas especialmente maiores na população negra e periférica brasileira, segundo o coordenador da UNEafro. “Não basta apenas atingir o objetivo mais prático e urgente do acesso ao Ensino Superior. Interessa-nos, mais que tudo, facilitar a esses jovens o acesso à informação e ao conhecimento libertários que possam servir de instrumento para sua construção enquanto seres humanos conscientes das possibilidades de intervenção na realidade”, ensina. Tal movimento extrapola, portanto, os limites da educação formal “Cada vez mais, a educação libertária permeia os espaços da música, do teatro, da dança, da poesia e os cursinhos buscam se inserir nesse contexto de construção de uma construção coletiva e independente de conhecimento”, afirma Gomes.

Temas como a negritude, a história afro-brasileira e a necessidade de emancipação do povo negro no Brasil são tratados como foco no cursinho. No calendário letivo, são organizados dois encontros anuais, chamados de “aulões”, no primeiro e no segundo semestres, com o intuito de reunir alunos de todos os núcleos para apresentações artísticas, aulas coletivas e debates. “Nesses encontros, intensificamos nosso contato e reafirmamos nossas ideias e ideologias”, comenta o professor.

Sobre o racismo, Gomes comenta que “As dificuldades impostas pelo racismo estrutural da sociedade brasileira vão além da negação aos jovens negros do acesso a escolas e espaços de cultura e lazer de qualidade”. Apesar das ações de educação coletiva e novos espaços para expressão, há sempre obstáculos no preconceito e na ojeriza dos racistas, segundo o professor. “Tomemos como exemplo os grupos musicais, religiosos e artísticos, em geral, que trabalham dentro do universo da tradição afro-brasileira, tais como grupos de maracatu, coco, centros de umbanda e candomblé. Além de lutarem por questões materiais, iniciativas e espaços desse tipo, eles precisam enfrentar, a todo o momento, a rejeição ‘natural’ de brancos que os veem como inferiores ou perigosos. O racismo é uma limitação moral e material imposta ao povo negro”, enfatiza ele.

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Participação de empreendedores negros avança e começa a representar parte relevante dos negócios de impacto no Brasil.

“Eu compreendo que o resgate da ancestralidade está interligada a um processo de resgate da autoestima”, opina Jéssica Cerqueira.

“Nosso impacto é a construção de um mundo mais humano para nossa comunidade negra”, afirma Alan Soares.

“Não falamos em diversidade, fala-se em valorização das diferenças”, propõe Paola Prandini.

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